“O Fenómeno Cinzento” PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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A autora do fenómeno “As Cinquenta Sombras de Grey” é E.L. James, pseudónimo de Erika Leonard, uma inglesa de 49 anos, mãe de dois adolescentes.

 

Anastasia Steel é uma estudante universitária em vésperas de se licenciar, inocente e virgem, que vai entrevistar um jovem, atraente e obscuro magnata. Daí nasce um fascínio mútuo que vai resultar em escaldantes sessões de sexo sadomasoquista e a descoberta de um passado sombrio. Eis, por alto, o enredo de ‘As 50 Sombras de Grey’, editado em Portugal pela Lua de Papel. A primeira edição, de 15 mil exemplares, esgotou em uma semana e entrou diretamente para o primeiro lugar do top de vendas.

Mas... porquê tanto fascínio e falatório com um livro que fala de práticas de bondage, dominação e sadomasoquismo (BDSM)? Numa altura em damos a emancipação feminina como garantida, o que é que ainda leva as mulheres a fantasiarem com um homem dominador que as faça entrar em êxtase? É um jogo de criatividade e imaginação, onde podemos fazer todas as coisas contrárias ao que aceitamos no dia a dia e que a sociedade “reprova”. E quanto mais a fantasia é irreal ou menos aceitável, mais forte é essa experiência de criatividade. O facto da dominação existir na fantasia erótica não significa que, na vida real e fora do espaço de partilha íntima do casal, ela seja sequer minimamente permitida. É uma forma de completar a vida com coisas que, de outra maneira, não permitiríamos e que me parece revestir uma importância extrema se assentarmos em duas premissas: 1º o País atravessa um período de crise extrema, onde as pessoas procuram não viver, mas sobreviver; 2º as práticas de leitura são realidades compartilhadas por poucos em especial se atendermos aos mais jovens e às classes mais baixas.

As práticas BDSM não são consideradas desvios sexuais, pelo menos por grande parte da psicologia moderna. “Não existe norma padrão da sexualidade; esta é apenas uma variante. Este tipo de relações tem regras muito específicas e que nada têm a ver com agressões terríveis. Implicam respeito pelo parceiro e poder parar-se a tempo, se for preciso, com uma palavra de segurança. Desde que não prejudique a saúde física e mental de nenhum dos dois adultos...”, defende um psicólogo.

Ora, num mundo em que cabe à mulher tomar decisões e ações constantes quanto à família, trabalho ou relacionamento, a fantasia erótica, em que não é só ela que decide, pode fazer todo o sentido e funcionar como escape. A literatura erótica também pode ser um bom aliado para incrementar a nossa sexualidade. Já a série ‘O Sexo e a Cidade’ foi um fenómeno nesse sentido. Tornou as conversas sobre sexualidade entre amigas mais frequentes e até mais ricas, porque havia vocabulário e ideias a trocar, sem que ninguém as criticasse por isso.

Mas estarão os portugueses preparados para ler e pensar sobre este fenómeno? Somos muito púdicos! Os portugueses não estão à vontade para falar destes assuntos mas estão muito à vontade para os praticar. Apesar de tudo, está a surgir um grupo de mulheres entre os 35 e os 45 anos com uma atitude diferente relativamente à sua sexualidade, em que verbalizam e partilham as suas fantasias e não se importam muito se as pessoas ficam escandalizadas com isso, embora não o façam para chocar.

Hugo Oliveira

Vereador da Câmara Municipal das Caldas da Rainha,

Director do Gabinete de Estudos e Edições do Instituto Fontes Pereira de Melo